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29/06: Não pare de cantar

Os vizinhos fazem barulho. Na sala, a cadeira vazia tem jeito de ausência. O frio anuncia geada. No zapear, a tv se reafirma péssima companhia. Não dá coragem, ir lá fora. Não há assunto para contar. Não há sapato que não aperte, rímel que não borre. Os olhares sempre brilhantes, os dentes sempre à mostra. Dormir num cobertor fofo parece tão melhor. Travesseiro entorpecente. O pijama feio veste bem. As pantufas de sapo não querem virar príncipe. A gatinha mia atenção, tem ciúme do computador. Dá sede. Como é que pode esquecer de tomar água. E de escrever. Ficar tanto tempo. Não ler os outros, que triste. Tem tanto amigo longe. Mesmo os do bairro. Faz falta, a boa gente. É pedir muito, ter princípios? Parece que é. Lá fora, a relativização. O gingado perverso da adaptação. O frio. A conveniência. O miado da gata e a festa dos vizinhos se somam aos barulhos de dentro. Mentira que essa gente iogue consegue não pensar. Até parece melancolia, mas nem é. A verdade é assim mesmo. Os dias são assim. Tem alguém cantando. Não dá pra identificar a música, mas é algo doce, de quem está bem. Poderia até ser uma cantiga de ninar. Dormir já foi menos importante. Descer a Higienópolis de madrugada, sem medo. Que saudade. A neblina bonita, iluminada pelos prédios. A esperança que não cabia na JK. Mãos frias, coração quente. Olheiras, coração cansado. Cantiga de ninar, mais um crédito. Ainda há beleza. A despeito, sempre haverá. Boa noite.

07/12: Closer - perto demais?


Closer - Mike Nichols (2004)


Anteontem, assisti Closer, na Globo. Já tinha visto antes, mas, dessa vez, o filme foi mais ferino comigo. Quando terminou, fiquei muito mal. E nem foi pela tradução ruim, ou pela voz de esquilo que colocaram na Natalie Portman.
Senti uma tristeza inexplicável, que, aos poucos, entre a dor e o sono, foi se revelando uma solidão imensa. Pensei, ou melhor, senti as lacunas que o desamor deixam. Closer é um filme sobre o anti-amor, sobre a desconsideração, sobre a realidade pós-moderna dos relacionamentos pseudo-afetivos. Cutucou, sem dó, meu ceticismo. E checou minha real capacidade de amar e de ser amada - verdadeiramente.
Não tenho dúvidas que alguns conflitos permanecem em curso elaborativo durante o sono. Por isso, no dia seguinte, acordei cansada, mas um pouco mais tranqüila. E porque também, além de Closer, há também o Brilho Eterno de uma Mente sem Lembrança, o filme mais realista que já vi sobre o amor. O Brilho não alimenta o delírio narcísico do ideal romântico. Mostra que o amor é finito e não é menos verdadeiro e válido por isso; ao contrário, admiti-lo assim o torna genuíno, honesto.
Ambos os filmes trazem, realisticamente, possibilidades distintas de vinculação. E o que eles me dizem em comum, subjetivamente falando, é que aquela solidão, você sabe, “aquela”, não haverá jamais alguém que acessará e dará conta. E tão somente porque é intrínseca à condição humana - por se saber incompleto e, mais assustadoramente, mortal.
A solidão é o efeito colateral da racionalidade.


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29/11: A pirralha


Betacaroteno. Essa palavra brota instantânea e obsessivamente toda vez que vejo cenoura no restaurante. E não consigo deixar de pegar. Cenoura, beterraba e verdura - imposições da boa nutrição. Estava na fila do self service, prato em punho, olhar fixo na cenoura ainda longe e pensando betacaroteno, quando senti um tranco de leve nas costas. Olho para atrás e vejo uma menina com o braço quebrado. “Esbarrou o gesso sem querer”, pensei. Três segundos e um novo tranco. Constato que foi de propósito. Dou uma boa analisada no tipinho: uns dez anos, uniforme de escola, boné sujo de doce e virado para trás, avisando que não se tratava de uma delicada consumidora de barbies, mas de uma moleca daquelas que sobem em árvores e batem nos meninos folgados. Percebi que tinha pressa e que me empurrava com o gesso pra a fila andar mais rápido, julgado poder fazer isso de modo dissimulado. Que pirralha.
Considero-me bem dinâmica nessas filas. Já sei bem o que quero ou preciso e sou ágil com os pegadores de salada. No entanto, a ingratinha não me valorizava. Ficava me pressionando a cada três segundos, como se tivesse de comer para, em seguida, salvar o mundo. Ah, mexeu com meus brios. Regredi à infância e, em birra pura, passei a escolher mais demoradamente cada folha, cada fatia, cada grão. O gesso, então, passou a ser constante na minha lombar. “Se não aprendeu a ter modos e paciência em casa, aprende hoje comigo”, eu pensava, enquanto hesitava calmamente entre a lasanha e o rondele. Dispersamo-nos quando cada uma seguiu para um lado diferente das comidas mineiras.
Terminei de me servir e segui para a balança, quando vi que ela também ia, um pouco à minha frente. Nem pensei duas vezes: apertei o passo e a ultrapassei, deixando-a, de novo, esperando atrás de mim. Vitoriosa, pesei meu prato e tomei um bom lugar. Três mesas à frente, outras crianças com o mesmo uniforme já almoçavam. Vi que olhavam a pirralha (ainda na balança) e cochichavam sem parar. “Ela deve ser mesmo terrível”, concluí. Todos lá, falando dela. Pareciam até que tramavam algo. Esqueci o caso e comecei a comer, quando fui surpreendida por um esfuziante “Parabéns a você”. As crianças cantavam e batiam palmas com vigor, enquanto a pirralhinha chegava à mesa, toda envergonhada, sem saber o que fazer com o prato e a alegria. Poxa vida. Então era por isso, a pressa? Se eu soubesse, menina, cederia a vez e ainda bancaria a sobremesa. Em pensamento, dediquei um brinde com suco de laranja vitamina c. Felicidades, danadinha.



16/11: Para que parem as segundas-feiras


Ao contrário do usual, não “escrevo para contar as novidades”; Justamente, venho te falar sobre a ausência delas. Minha vida tem sido uma sacana sucessão de segundas-feiras. Eu acordo, trabalho, corro, engulo a comida, as pessoas, corro de novo e durmo um pouco. Nos fins de semana, desmaio no sono em débito e permito que a cerveja me azede. Envelheço.
Veja só. Qualquer bom cristão e até mesmo eu e você acharíamos um absurdo que uma pessoa que tem emprego, teto e saúde fique se queixando. E, em termos pragmáticos, é mesmo. Acontece que, além da tristeza, existe também a não alegria. E o que eu faço com isso, meu caro? Deixe que eu mesma responda: ora rumino a resignação esperançosa, como quem aguarda a chuva passar; ora giro em parafuso, tentando vazar - em vão - o muro das lamentações. Hoje, estou assim, em espiral.
Em vez de enviar a você, publiquei esta carta aqui. Resolvi fazer desse jeito, porque carta publicada vira texto, texto vira ficção e ficção, quem sabe, vira apenas sincero fingimento, como o de Pessoa. Já reparou que algumas dores, quando passam, soam ridículas à lembrança?
Ah, mas talvez você nem leia. E, se ler, talvez não se importe muito, o que seria razoável. Descobri que, em Nova Guiné, pessoas com Aids são enterradas vivas. No Oriente Médio, mulheres estupradas são condenadas a chibatadas ou a morte. No Brasil, milhares de crianças são usados pela rede de tráfico e prostituição em escala progressiva. Absurdos são os meus tormentos frente a tudo isso. Pequenas são as minhas questões. Vergonhosas.
Por isso, sua compaixão não faria mesmo muito sentido e eu até me decepcionaria com sua impertinência. Preferiria que você me contasse uma piada boa, ou, indignado, reclamasse dos infortúnios do timão. De qualquer modo, com sua mão segurando a minha, eu pararia de girar e, contigo, seguiria em frente, mesmo que tão somente para a sucessão dos dias.


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02/10: Saga de Dog - O Final

Caros leitores,

Escrevo para dar notícias de Dog, atendendo ao pedido de alguns e à minha ânsia em mostrar a rede de ajuda que se formou em torno do sofrimento deste cachorro.
A saga de Dog durou um mês, desde o seu atropelamento em 24 de julho.
Os primeiros esforços foram para tratar os ferimentos, que inspiravam cuidados especiais para não gerarem uma infecção generalizada.
Todo o tratamento foi realizado na casa dos rapazes, que abrigaram o Dog desde o acidente. Frazão, Bob e Guilherme se desdobraram para medicar, alimentar e reanimar o bicho, que se amuava numa tristeza sem fim. Fizeram além do esperado e do pedido. Nunca me pressionaram para resolver o problema e foram os melhores amigos do cão. Dúvidas? Veja abaixo:

Camaradagem...


...é o melhor remédio.


Sempre que possível, eu, Pati A. e Pati F. passávamos lá para ver os ferimentos, buscá-lo para os retornos da Dra. Cibele (Centro Integrado - Av. Maringá) ou simplesmente visitá-lo.
Cibele é a veterinária que o socorreu. Cobrou só os materiais, atendeu-o várias vezes, sempre no almoço ou depois das 18, horários que podíamos. Mobilizou outro veterinário, o Dr. Rodrigo, para uma segunda opinião sobre a pata dianteira, que perdeu definitivamente os movimentos. Enfim, encontramos uma clínica de medicina veterinária e solidariedade.
Enquanto isso, eu e as Patrícias fazíamos contatos para conseguir um dono para o Doguinho. Várias tentativas frustradas e o tempo passando. Foi aí que entrou a Luciana, que, a despeito de nossas diferenças, encheu-se de compaixão, entrou no time e mobilizou ajuda deste e de outro mundo para curar e achar uma casa para o Dog.

Compaixão acima das coisas pequenas.


Apesar da perda da pata, tentamos evitar a todo custo a amputação. Dog reagiu bem e este procedimento, até então, não foi necessário. A cicatrização foi muito bem sucedida e logo suspendemos os medicamentos e os curativos. Contudo, as alternativas de moradia foram se esgotando e nossa angústia aumentando. Por ser adulto, muito grande e com poucas possibilidades de defesa, sempre encontrávamos impedimentos com os que cogitavam abrigá-lo.
Devolvê-lo às ruas era impensado e desgastá-lo numa feira de animais era vão; ninguém se interessaria por um adulto manco, com tantos filhotes disponíveis. Já não tínhamos chão. Estávamos prestes a transferi-lo para algum canil da ONG, onde acabaria confinado até, quem sabe, a sorte de um dia ser adotado, quando contamos com a compaixão definitiva de Tamye, a mãe de Pati A. .
Apesar de ela já ter duas cadelas e uma gata, resolveu abrigar o cachorrão em sua casa, em Presidente Prudente, SP. Esperou a folga do filho, que mora em São Paulo, para que viessem de carro buscar o nosso já tão amado bichão.

Algumas despedidas são felizes.


Dog é danado de inteligente e entendeu tudo. Em 24 de agosto, despediu-se dos meninos e de nós com tristeza, mas com muita calma. Seguiu para terras paulistas, encontrando lar definitivo.
Loucos por bichos, Tamye e seu esposo Valdomiro fizeram com que Dog se sentisse em casa rapidamente. Os outros bichos, a princípio, ficaram um pouco assustados, mas logo perceberam, após algumas lambidas e latidos amistosos, o quanto Dog é camarada.
Atualmente, Dog tem como hobbies correr latindo no portão com a sua amiga Ully para assustar transeuntes, abocanhar petiscos no ar (sem margem de erro) e esperar seus donos em paciente prontidão.
Manco e tudo, mostrou-se um eficiente cão de guarda. Rosna e avança como um lobo se algum estranho tenta invadir seus domínios.

Família. Pena que faltou o Henrique.


Enfim, Dog está muito feliz, minha gente. Ainda trata a pata que, por não senti-la, vive arrrastando ao chão, mas está bem. Tem dois donos apaixonados por ele, uma gata e duas cadelas como amigas (todos castrados, então vão ficar só na amizade, mesmo) e tudo que precisa para ser um cachorro saudável e feliz.
Muito obrigada a todos que deixaram comentários e aos que tinham a piada pronta e solidariamente não comentaram. A torcida e a compreensão de vocês fizeram muita diferença.


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05/09: É nóis na fita, mano

Naquela época, era um tal de parente de funcionário morrer, que lá estávamos nós, eu e minha chefe, semanalmente, em velórios. Já sabíamos quais eram os melhores planos funerários e que floriculturas faziam as coroas mais bonitas.
Numa segunda-feira, fomos comunicadas de uma morte mais triste que as outras. O filho de dezesseis anos daquele funcionário antigo fora assassinado a tiros. O corpo seria velado na casa dele mesmo, porque pobre não tem dinheiro pra enfiar defunto em casa funerária.
Olhamos o endereço: bairro desconhecido. Nada que um mapa da cidade não resolvesse. O empregado de vinte anos de casa merecia a consideração. Fomos no carro da chefe, uma blazer preta lindíssima. “Vai que é rua de terra. Isso aqui anda em qualquer buraco”, orgulhou-se a superior.
Depois de um tanto andado, uma lonjura só, pedimos informação:
- O bairro Nossa Senhora da Paz é ali pra cima?
- É sim, mas acho que as senhoras não deveriam ir, não.
Ficamos com um pouco de medo, mas já estávamos tão perto e esse preconceito todo com bairro de pobre. E o funcionário, coitado? Vinte anos...
Seguindo o caminho, avistamos uma indústria:
- Uma fábrica. O que é ali?
- Deixa eu ver (põe os óculos)... Vixe, é a Bratac!
- Bratac? Essa porra de bairro é a favela da Bratac?
- Cazzo. A gente tá de Blazer. E de scarpin, relógio, bolsa. E agora?
-Agora paciência, ué. Já estamos aqui mesmo, vamos até o fim.
Não foi difícil encontrar a rua do morto, toda cheia de gente. Sentados no meio-fio, uns guris com cara de planejamento fumavam maconha. Mulheres em entra-e-sai denunciavam a casa. Fomos logo dando pêsames pra todo mundo, por garantia. Alguém foi chamar o funcionário. “Seo Fulano! Tem umas moças da firma, aqui”.
Entramos na sala-funerária. Grandão, o menino. Parecia até mais velho. Tinha cara de bravo. Uma mocinha chorava feito louca, sob o consolo de duas outras. Usavam minissaias. Pensei na gafe das roupas e me achei estúpida na seqüência. As crianças brincavam e comiam algo que parecia bom. No fundo do quintal, os adultos bebiam pinga. Mas só ofereceram café pra gente (sacanagem).
Finalmente, encontramos o funcionário. Triste, murcho de dor. Olhar no chão. Mas não chorava.
- Sentimos muito mesmo, Seo Fulano.
- Poxa, vocês vieram aqui. Muito obrigada, a firma é tão boa pra mim. Já deram café pra vocês?
- Já, já. Sabemos que não há dor pior que essa. Se precisar de alguma coisa, o senhor sabe que pode contar com a gente.
- Não vou precisar de nada, não. Os amigos do fulaninho vão dar um jeito nisso, vão acertar as contas com quem fez isso aí.
- (Caras de horror tentando naturalidade) Aaah, certo, certo. Mas precisando viu, é só ligar. Olha, a gente precisa ir, o escritório tá sozinho.
- Tá certo. Obrigada, gente. Que bondade, vocês virem.
Quase não conversamos pelo caminho de volta. Minha chefe fumou três cigarros.
- Já saímos do bairro, né?
- Ah, já.
- Vamos ligar o rádio?
- Opa.
- O que é isso?
- Acho que é Racionais.
- Putz. Desliga isso aí.


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21/08: Transparente


Não é de propósito que fico invisível. Meu marketing pessoal é de terceira. Descuido do Orkut. Quase nunca vou ao happy hour. Não estou para o que der e vier. O grito do cão me dói mais que as lamúrias da gente que diz que quer mudar. Não peço explicações para aquele que desconsideradamente sumiu. O corretor do Word me avisa que não existe “desconsideradamente”. Quem dera. Fico sem o crédito de minha idéia. Deixa pra lá - de novo. Os carros não dão seta e ensaiam me atropelar. O baladeiro tromba em mim e não vê. O moço ressurgido me olha intenso como antigamente e eu finjo não perceber porque antigamente é longe. A balconista vende pão queimado e eu como. Não me incluíram na vaquinha. Ver esses meninos de colares, que bebem long necks, faz eu me sentir imensamente só. Gabriel e Hilda comprovam o que eu não queria acreditar. Achei que fosse só comigo - trouxa. Eu ia dizer que é um paradoxo o ceticismo ser uma crença, mas as pessoas não gostam da minha filosofia barata. A panfletagem de direita me dá uma preguiça. E a de esquerda me dá desgosto. Quando as horas não passam no escritório, a boca fica amarga. O escritório não tem janelas. Espio lá fora pelo computador. Me escondo só um pouco na xícara de café. Essa gente burra me entristece. Mas há os cultos e eles são piores. Olhar blasé é tão cafona. É triste pia cheia de louça. Ponho tudo de molho pra não ressecar. Eu salvo o planeta, mas não conserto a torneira. Estou por fora das últimas bandas de rock. Tanta coisa velha ainda pra entender. Eu deveria escrever mais pra Ana. E pra Rose, também. Quando as pessoas vão embora, eu deixo de um jeito que não pode. Quando não chove, o nariz sangra e quando chove, o cabelo arma. Mas intempérie ruim mesmo é a do peito. Parecia infarto, mas era só gripe e aflição. Quando dói muito, eu ajudo o chuveiro a molhar o box. Depois passa, como sempre. O médico olhou meus exames e disse - Sinto muito, mas não tenho boas notícias: a senhora vai viver pra sempre. - Tem cura, doutor? - Não tem. Recomendo um macumbeiro.
Vou buscar uma segunda opinião, evidentemente.


08/08: Elvis não morreu... E está logo ali!

Recentemente, comentei no blog da Margo sobre essa mania do rock de tentar subverter o imutável: a morte. Citei duas crenças que considero as mais notórias e significativas: a primeira, que Paul McCartney teria morrido num acidente automobilístico em 1969, sendo substituído pelo sósia Billy Shears.
Os próprios Beatles teriam deixado pistas em capas de discos e letras de músicas, segundo a lenda. Se fosse verdade, eu diria que foi uma grande troca, afinal, considero Paul - ou Billy - o melhor Beatle, seja por suas composições, seja pela melodia impecável de sua voz. Contudo, devo afirmar apenas que foi uma excelente estratégia de marketing de um grupo que desejava se manter num lugar mítico no cenário rocker mundial.
A segunda lenda, que caminha no sentido oposto da primeira, é a que Elvis Presley não teria morrido. O cantor, apontado por muitos como o pai do Rock (e rejeitado por tantos outros), morreu aos 42 anos, em virtude de sua péssima saúde e abuso sistemático de medicamentos. Um falecimento precoce e inaceitável para um mito, que, como tal, deveria estar imune às vicissitudes dos mortais.
Em negação à humanidade do Rei, surgiu a máxima “Elvis não morreu”, que tanto é usada para proclamar a extensão de sua obra, como para afirmar categoricamente que o astro estaria escondido em algum lugar do mundo, devido à sua comprometedora contribuição em investigações sobre o tráfico mundial de drogas.

Eis o velhinho!

Pois agora, às vésperas do aniversário de 30 anos de sua morte (16 de agosto), fortes especulações indicam que o cantor estaria vivendo até hoje na Argentina, mais precisamente em Buenos Aires.
Agora, imagine comigo: suponha que você seja o cantor mais popular do planeta Terra, com sua imagem exaustivamente explorada, pois, além de ótimo intérprete, você também é sexy e lindo “de morrer”. Por ter resolvido colaborar com investigações perigosíssimas do FBI, você precisará abrir mão de toda sua glória e se refugiar em algum lugar onde, com improvável sorte, não será reconhecido. Que tal escolher o segundo país mais conhecido da América do Sul, precisamente sua capital federal, constantemente exposta aos olhos do mundo por conflitos políticos e força turística? Excelente idéia, não? Pois é... Há os que acreditam; e não são poucos. Campanhas na mídia, especialmente na confiabilíssima internet, têm ganhado força.
Portanto, fique atento: se for passear na terra do tango, pode ser que você tenha a sorte de encontrar um velhinho muito charmoso, de voz estremecedora e requebrantes quadris.


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02/08: A saga de Dog

Parece que quando chove, é sempre na hora do almoço ou depois da seis. E o telefone sempre toca quando eu já estou com a bolsa em punho, morta de fome e prestes a perder o ônibus. Saí do escritório com pressa - quem sabe o motorista tenha dó de mim e pare fora do ponto. Também atravessando a rua, tinha uma cachorrada atrás da cadelinha. Passaram por baixo do caminhão parado, que resolveu sair. Um cachorrão gritou e voou espirrado numa pirueta. Caiu de costas, gritando, e foi atacado pelos falsos companheiros de orgia. Eu e um homem expulsamos os traíras e tiramos o cão do asfalto. Sangue, dor e aquela cara de tristeza viralatística acentuada. Os vizinhos se aproximaram e tentaram descobrir quem era o dono da vítima. Enquanto isso, eu tentava ligar para a ONG, para a veterinária, para deus e o diabo, sem sucesso. Um homem de caminhonete foi chamado para ver se o atropelado era seu. Não era. E eu, já sufocada de impotência, pedi ajuda pra ele. Pusemos o cachorro na traseira da caminhonete e começamos a via sacra. Corremos para a médica de minha gata. Enquanto isso, eu falava com uma mulher da tal ONG, que, com eufemismo e histeria, informou-me que eu teria que me foder sozinha.
Lindo...

Chegamos à clínica. “Não temos raio-x... Tem que levar para o HV”. E a merda da chuva só piorando. Liguei para a Pati, pra poder descompensar com alguém e contei sobre a ONG. Ela ficou muito puta e disse que ia processar meia Londrina. Partimos para o hospital. Lonjura, uma espera secular para sermos atendidos e, finalmente, a resposta: “A ortopedia está em recesso”. Eu queria bater na médica, mas precisava ser prática e apenas pedi o endereço de alguma clínica com o maldito raio-x, que fosse próxima. Seguimos para o local, já passada uma hora e meia do acidente, e conseguimos atendimento para o cachorro cheio de água e resignação.
Chorei de novo, diante da veterinária. Louca, louca, louca. Fiquei com uma vergonha imensa. Pedi desculpas milhões de vezes, o que me fez parecer mais louca ainda. Contei toda a história e ela comunicou que só cobraria os materiais. Ficamos combinadas que eu deveria buscá-lo no fim da tarde.
Voltamos eu e o Carlos para o bairro (a essa altura, eu e o homem da caminhonete já éramos amigos). Comi uma esfirra para calibrar e contei o drama para os colegas. Pati me telefonou para ter notícias e ligou para meio mundo (inclusive para a mulher da ONG, com quem quebrou o pau), porque precisávamos encontrar um abrigo para o cachorro.
Depois das 18 horas, eu e ela fomos buscar o cão. Tínhamos encontrado um homem interessado no bicho. Dispensável contar que chovia. Descobri que meus braços doíam porque ele pesava quase 20 quilos, o que me informou a médica. Eu e ele nos ajeitamos no banco de trás do Ford Ka, deixando a comercial da Ana Hickmann no chinelo. Encaramos um belo rush para atravessar a cidade.
...porém triste.

Chegamos à casa do homem, que viu o cão machucado (a perna não estava quebrada, mas ficou bem estropiada) e disse que não era com ele, que foi engano, algo como se bicho fosse objeto, que a gente verifica se tem defeito antes de comprar.
Indignadas e sem saber o que fazer (moramos em apertamentos de um quarto e temos gatos), começamos a ligar para todas as prováveis boas almas com espaço no quintal e no peito. Ninguém podia, ou queria, ou estava. A gente foi ficando nervosa e ele se manteve bonzinho e triste, com sua perna toda enfaixada.
Ligamos para a casa do Guilherme, que não estava, mas o Bob atendeu. Eu nem sou íntima do Bob, mas implorei mesmo assim e ele aceitou abrigar o cachorro, até que resolvêssemos o que fazer. Instalamos o bicho lá e fomos embora. Depois, por telefone, falei com o Guilherme, implorei de novo, mas nem precisava porque lá tem os dois espaços que procurávamos.
Desde então, estamos assim: Bob, Guilherme e Frazão cuidam do bicho, dão alimento, remédios e atenção, enquanto nós tentamos achar o dono antigo, ou um novo. Já espalhamos cartazes, divulgamos no jornal e anunciamos no Camargo. Para tanto, o Bob tirou umas fotos do cachorrão e salvou os arquivos com o nome “Dog”. Deste modo, ele ficou assim batizado.

O melhor amigo do cão é a sorte.

Se nada conseguirmos, Dog vai para uma fazenda, mas, para isso, precisa estar com os ferimentos cicatrizados. Provavelmente, ele não recuperará os movimentos de uma perna dianteira. Não dá para soltá-lo na rua novamente, porque ele é mansinho que só vendo e vai acabar se ferrando de novo. Apesar de queridíssimo e super bonitão (parece uma mistura de vira-lata com pastor e labrador), o fato de ser adulto e provável deficiente físico tem dificultado a conquista de um novo dono. Os meninos têm sido maravilhosos, mas já possuem outro cachorrão.
Por isso, este post enorme. Pra ver se você quer o Dog na sua casa e na sua vida. Ele tem ainda mais uns dias de antibióticos, mas eu pago. E não é por bondade. É que é impossível não amar o Dog.


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23/07: Sobre o medo

"Auto-retrato com Macaco" (1938)


Talvez fosse fim de tarde, pelo jeito morno do céu. Caminhava sem pressa quando o assaltante apareceu (estranho chamar menino de assaltante). Ameacei fugir e ele me deu três tiros no rosto. “Pá! Pá! Pá!” - os estampidos secos. Tudo sumiu. Só restou a cor de abóbora de quando se fecha os olhos em banho de sol. Percebi que morria. Não havia tristeza, nem dor, nem nada. Somente a sensação de inexistir devagarzinho.
Passei dias pensando nesse sonho. Assusta a passagem de já se saber já morta, estando ainda viva. Tenho medo da dor do meu último olhar.

Saía da aula de musculação. O televisor instalado para os jogos do Pan mostrava o avião destruído. E não era sonho. Entre as chamas, o mesmo modelo de aeronave que alguém do meu sangue pilota. Escadaria até o telefone mais próximo, terror, desespero. Minutos infinitos até saber que não era o vôo de quem eu tanto amo. Em seguida, desolação pela matança culposa. Descobri que não me conformo. E que, sinceramente, prefiro morrer a ver mortos os que amo. Custou a passar o choro. O medo não passará.

Vi a orquestra e o coro executando a nona sinfonia de Beethoven. O coração sempre palpita diante de tanta glória. Queria que a vida fosse este arroubo, mas... escute: só toca tango. Fúria, doçura, solidão e paixão se misturam no vai-e-vem das passadas longas. A melodia pede altivez, mesmo na tristeza. E eu tropeço, às vezes. Tenho horror ao vexame.

Frida Kahlo viveu pouco, mas viveu muito - você entende o que quero dizer. A primeira vez que vi uma obra sua, detestei. “Mulher esquisita... e esse macaco!”. Irritação diante do atordoamento. Insisti em conhecê-la - um interesse pelo bizarro - e me apaixonei pela sua força. Depois de dela, estão ridículos a autopiedade, a preguiça e os pudores frívolos. Os olhos de Frida me vigiam. Olhos cor de abóbora.