
Talvez fosse fim de tarde, pelo jeito morno do céu. Caminhava sem pressa quando o assaltante apareceu (estranho chamar menino de assaltante). Ameacei fugir e ele me deu três tiros no rosto. “Pá! Pá! Pá!” - os estampidos secos. Tudo sumiu. Só restou a cor de abóbora de quando se fecha os olhos em banho de sol. Percebi que morria. Não havia tristeza, nem dor, nem nada. Somente a sensação de inexistir devagarzinho.
Passei dias pensando nesse sonho. Assusta a passagem de já se saber já morta, estando ainda viva. Tenho medo da dor do meu último olhar.
Saía da aula de musculação. O televisor instalado para os jogos do Pan mostrava o avião destruído. E não era sonho. Entre as chamas, o mesmo modelo de aeronave que alguém do meu sangue pilota. Escadaria até o telefone mais próximo, terror, desespero. Minutos infinitos até saber que não era o vôo de quem eu tanto amo. Em seguida, desolação pela matança culposa. Descobri que não me conformo. E que, sinceramente, prefiro morrer a ver mortos os que amo. Custou a passar o choro. O medo não passará.
Vi a orquestra e o coro executando a nona sinfonia de Beethoven. O coração sempre palpita diante de tanta glória. Queria que a vida fosse este arroubo, mas... escute: só toca tango. Fúria, doçura, solidão e paixão se misturam no vai-e-vem das passadas longas. A melodia pede altivez, mesmo na tristeza. E eu tropeço, às vezes. Tenho horror ao vexame.
Frida Kahlo viveu pouco, mas viveu muito - você entende o que quero dizer. A primeira vez que vi uma obra sua, detestei. “Mulher esquisita... e esse macaco!”. Irritação diante do atordoamento. Insisti em conhecê-la - um interesse pelo bizarro - e me apaixonei pela sua força. Depois de dela, estão ridículos a autopiedade, a preguiça e os pudores frívolos. Os olhos de Frida me vigiam. Olhos cor de abóbora.
A Frida enfeiou até a Salma Hayek, ela que vire esses zóio pra lá!