Parece que quando chove, é sempre na hora do almoço ou depois da seis. E o telefone sempre toca quando eu já estou com a bolsa em punho, morta de fome e prestes a perder o ônibus. Saí do escritório com pressa - quem sabe o motorista tenha dó de mim e pare fora do ponto. Também atravessando a rua, tinha uma cachorrada atrás da cadelinha. Passaram por baixo do caminhão parado, que resolveu sair. Um cachorrão gritou e voou espirrado numa pirueta. Caiu de costas, gritando, e foi atacado pelos falsos companheiros de orgia. Eu e um homem expulsamos os traíras e tiramos o cão do asfalto. Sangue, dor e aquela cara de tristeza viralatística acentuada. Os vizinhos se aproximaram e tentaram descobrir quem era o dono da vítima. Enquanto isso, eu tentava ligar para a ONG, para a veterinária, para deus e o diabo, sem sucesso. Um homem de caminhonete foi chamado para ver se o atropelado era seu. Não era. E eu, já sufocada de impotência, pedi ajuda pra ele. Pusemos o cachorro na traseira da caminhonete e começamos a via sacra. Corremos para a médica de minha gata. Enquanto isso, eu falava com uma mulher da tal ONG, que, com eufemismo e histeria, informou-me que eu teria que me foder sozinha.

Chegamos à clínica. “Não temos raio-x... Tem que levar para o HV”. E a merda da chuva só piorando. Liguei para a Pati, pra poder descompensar com alguém e contei sobre a ONG. Ela ficou muito puta e disse que ia processar meia Londrina. Partimos para o hospital. Lonjura, uma espera secular para sermos atendidos e, finalmente, a resposta: “A ortopedia está em recesso”. Eu queria bater na médica, mas precisava ser prática e apenas pedi o endereço de alguma clínica com o maldito raio-x, que fosse próxima. Seguimos para o local, já passada uma hora e meia do acidente, e conseguimos atendimento para o cachorro cheio de água e resignação.
Chorei de novo, diante da veterinária. Louca, louca, louca. Fiquei com uma vergonha imensa. Pedi desculpas milhões de vezes, o que me fez parecer mais louca ainda. Contei toda a história e ela comunicou que só cobraria os materiais. Ficamos combinadas que eu deveria buscá-lo no fim da tarde.
Voltamos eu e o Carlos para o bairro (a essa altura, eu e o homem da caminhonete já éramos amigos). Comi uma esfirra para calibrar e contei o drama para os colegas. Pati me telefonou para ter notícias e ligou para meio mundo (inclusive para a mulher da ONG, com quem quebrou o pau), porque precisávamos encontrar um abrigo para o cachorro.
Depois das 18 horas, eu e ela fomos buscar o cão. Tínhamos encontrado um homem interessado no bicho. Dispensável contar que chovia. Descobri que meus braços doíam porque ele pesava quase 20 quilos, o que me informou a médica. Eu e ele nos ajeitamos no banco de trás do Ford Ka, deixando a comercial da Ana Hickmann no chinelo. Encaramos um belo rush para atravessar a cidade.
Chegamos à casa do homem, que viu o cão machucado (a perna não estava quebrada, mas ficou bem estropiada) e disse que não era com ele, que foi engano, algo como se bicho fosse objeto, que a gente verifica se tem defeito antes de comprar.
Indignadas e sem saber o que fazer (moramos em apertamentos de um quarto e temos gatos), começamos a ligar para todas as prováveis boas almas com espaço no quintal e no peito. Ninguém podia, ou queria, ou estava. A gente foi ficando nervosa e ele se manteve bonzinho e triste, com sua perna toda enfaixada.
Ligamos para a casa do Guilherme, que não estava, mas o Bob atendeu. Eu nem sou íntima do Bob, mas implorei mesmo assim e ele aceitou abrigar o cachorro, até que resolvêssemos o que fazer. Instalamos o bicho lá e fomos embora. Depois, por telefone, falei com o Guilherme, implorei de novo, mas nem precisava porque lá tem os dois espaços que procurávamos.
Desde então, estamos assim: Bob, Guilherme e Frazão cuidam do bicho, dão alimento, remédios e atenção, enquanto nós tentamos achar o dono antigo, ou um novo. Já espalhamos cartazes, divulgamos no jornal e anunciamos no Camargo. Para tanto, o Bob tirou umas fotos do cachorrão e salvou os arquivos com o nome “Dog”. Deste modo, ele ficou assim batizado.
Se nada conseguirmos, Dog vai para uma fazenda, mas, para isso, precisa estar com os ferimentos cicatrizados. Provavelmente, ele não recuperará os movimentos de uma perna dianteira. Não dá para soltá-lo na rua novamente, porque ele é mansinho que só vendo e vai acabar se ferrando de novo. Apesar de queridíssimo e super bonitão (parece uma mistura de vira-lata com pastor e labrador), o fato de ser adulto e provável deficiente físico tem dificultado a conquista de um novo dono. Os meninos têm sido maravilhosos, mas já possuem outro cachorrão.
Por isso, este post enorme. Pra ver se você quer o Dog na sua casa e na sua vida. Ele tem ainda mais uns dias de antibióticos, mas eu pago. E não é por bondade. É que é impossível não amar o Dog.
Vida de Cachorro
Rita Lee/Arnaldo D. Baptista/Sérgio Baptista
Vamos embora companheiro, vamos
Eles estão por fora do que eu sinto por você
Me dê sua pata peluda, vamos passear
Sentindo o cheiro da rua
Me lamba o rosto, meu querido, lamba
E diga que também você me ama
Eu quero ver seu rabo abanando
Vamos ficar sem coleira
Vamos ter cinco lindos cachorrinhos
Até que a morte nos separe, meu amor!
(e o meu ap, infelizmente, tbm tem um quarto... vou ver na bolha, queridona)
um beijo.