Garrafas Virtuais

Transparente

Não é de propósito que fico invisível. Meu marketing pessoal é de terceira. Descuido do Orkut. Quase nunca vou ao happy hour. Não estou para o que der e vier. O grito do cão me dói mais que as lamúrias da gente que diz que quer mudar. Não peço explicações para aquele que desconsideradamente sumiu. O corretor do Word me avisa que não existe “desconsideradamente”. Quem dera. Fico sem o crédito de minha idéia. Deixa pra lá - de novo. Os carros não dão seta e ensaiam me atropelar. O baladeiro tromba em mim e não vê. O moço ressurgido me olha intenso como antigamente e eu finjo não perceber porque antigamente é longe. A balconista vende pão queimado e eu como. Não me incluíram na vaquinha. Ver esses meninos de colares, que bebem long necks, faz eu me sentir imensamente só. Gabriel e Hilda comprovam o que eu não queria acreditar. Achei que fosse só comigo - trouxa. Eu ia dizer que é um paradoxo o ceticismo ser uma crença, mas as pessoas não gostam da minha filosofia barata. A panfletagem de direita me dá uma preguiça. E a de esquerda me dá desgosto. Quando as horas não passam no escritório, a boca fica amarga. O escritório não tem janelas. Espio lá fora pelo computador. Me escondo só um pouco na xícara de café. Essa gente burra me entristece. Mas há os cultos e eles são piores. Olhar blasé é tão cafona. É triste pia cheia de louça. Ponho tudo de molho pra não ressecar. Eu salvo o planeta, mas não conserto a torneira. Estou por fora das últimas bandas de rock. Tanta coisa velha ainda pra entender. Eu deveria escrever mais pra Ana. E pra Rose, também. Quando as pessoas vão embora, eu deixo de um jeito que não pode. Quando não chove, o nariz sangra e quando chove, o cabelo arma. Mas intempérie ruim mesmo é a do peito. Parecia infarto, mas era só gripe e aflição. Quando dói muito, eu ajudo o chuveiro a molhar o box. Depois passa, como sempre. O médico olhou meus exames e disse - Sinto muito, mas não tenho boas notícias: a senhora vai viver pra sempre. - Tem cura, doutor? - Não tem. Recomendo um macumbeiro.
Vou buscar uma segunda opinião, evidentemente.

Publicado em 21 de agosto de 2007 às 11:22 por salome

Comentários

    • Nossa... lindo!
      Se for auto-biográfico: ânimo mulher! É normal passar por alguns períodos sorumbáticos, mas logo tem que levantar esse astral!
    • por mazimendes
    • 21.Ago.2007 às 11:34 - Permalink - Reportar
    mazimendes
    • nossa, me parece uma mistura de fernando pessoa com 'pela metade' de arnaldo antunes!

      que retorno triste, mas triunfal, dona salompas!

      (ahm, e tu pode sumir mas invisível tu não tem com ficar, tu aparece na saudade que provoca)
    • por groucho
    • 21.Ago.2007 às 11:49 - Permalink - Reportar
    groucho
    • Uauuu!! Posso fazer meu comentário pessoalmente? Hehehe...sei que não gosta...

      Adorei o texto, concordo com muita coisa, mas fiquei "encafifada" com outras. Um beijo.
    • por gibedendo
    • 21.Ago.2007 às 12:06 - Permalink - Reportar
    gibedendo
    • ah, delícia de ler.
      Saudades, querida.
    • por Deni
    • 21.Ago.2007 às 14:15 - Permalink - Reportar
    Deni
  1. vanessagummo
    • O ceticismo é sim uma crença. Definitivamente.
    • por LFM
    • 21.Ago.2007 às 14:34 - Permalink - Reportar
    LFM
    • ah! q lindo... como sempre!
    • por pati, com orgulho da sua amiga!
    • 21.Ago.2007 às 15:10 - Permalink - Reportar
    pati, com orgulho da sua amiga!
    • Felizmente vc consegue colocar beleza e graça até nas tempestades emocionais da vida!!!Muito lindo, bjs.
    • por Paty, a Mel.
    • 21.Ago.2007 às 15:46 - Permalink - Reportar
    Paty, a Mel.
  2. vivi
    • Essa profundidade em sentir a vida às vezes nos deixa assim mesmo...
    • por carina
    • 22.Ago.2007 às 09:27 - Permalink - Reportar
    carina
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