Ao contrário do usual, não “escrevo para contar as novidades”; Justamente, venho te falar sobre a ausência delas. Minha vida tem sido uma sacana sucessão de segundas-feiras. Eu acordo, trabalho, corro, engulo a comida, as pessoas, corro de novo e durmo um pouco. Nos fins de semana, desmaio no sono em débito e permito que a cerveja me azede. Envelheço.
Veja só. Qualquer bom cristão e até mesmo eu e você acharíamos um absurdo que uma pessoa que tem emprego, teto e saúde fique se queixando. E, em termos pragmáticos, é mesmo. Acontece que, além da tristeza, existe também a não alegria. E o que eu faço com isso, meu caro? Deixe que eu mesma responda: ora rumino a resignação esperançosa, como quem aguarda a chuva passar; ora giro em parafuso, tentando vazar - em vão - o muro das lamentações. Hoje, estou assim, em espiral.
Em vez de enviar a você, publiquei esta carta aqui. Resolvi fazer desse jeito, porque carta publicada vira texto, texto vira ficção e ficção, quem sabe, vira apenas sincero fingimento, como o de Pessoa. Já reparou que algumas dores, quando passam, soam ridículas à lembrança?
Ah, mas talvez você nem leia. E, se ler, talvez não se importe muito, o que seria razoável. Descobri que, em Nova Guiné, pessoas com Aids são enterradas vivas. No Oriente Médio, mulheres estupradas são condenadas a chibatadas ou a morte. No Brasil, milhares de crianças são usados pela rede de tráfico e prostituição em escala progressiva. Absurdos são os meus tormentos frente a tudo isso. Pequenas são as minhas questões. Vergonhosas.
Por isso, sua compaixão não faria mesmo muito sentido e eu até me decepcionaria com sua impertinência. Preferiria que você me contasse uma piada boa, ou, indignado, reclamasse dos infortúnios do timão. De qualquer modo, com sua mão segurando a minha, eu pararia de girar e, contigo, seguiria em frente, mesmo que tão somente para a sucessão dos dias.
Meninos E Meninas
(Renato Russo, Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá)
Quero me encontrar, mas não sei onde estou
Vem comigo procurar algum lugar mais calmo
Longe dessa confusão e dessa gente que não se respeita
Tenho quase certeza que eu não sou daqui
Acho que gosto de São Paulo
Gosto de São João
Gosto de São Francisco e de São Sebastião
E eu gosto de meninos e meninas
Vai ver que é assim mesmo e vai ser assim pra sempre
Vai ficando complicado e ao mesmo tempo diferente
Estou cansado de bater e ninguém abrir
Você me deixou sentindo tanto frio
Não sei mais o que dizer
Te fiz comida, velei teu sono
Fui teu amigo, te levei comigo
E me diz: pra mim o que é que ficou?
Me deixa ver como viver é bom
Não é a vida como está, e sim as coisas como são
Você não quis tentar me ajudar
Então, a culpa é de quem? A culpa é de quem?
Eu canto em português errado
Acho que o imperfeito não participa do passado
Troco as pessoas
Troco os pronomes
Preciso de oxigênio, preciso ter amigos
Preciso ter dinheiro, preciso de carinho
Acho que te amava, agora acho que te odeio
São tudo pequenas coisas e tudo deve passar
Publicado em 16 de novembro de 2007 às 16:07 por salome