Garrafas Virtuais

A pirralha

Betacaroteno. Essa palavra brota instantânea e obsessivamente toda vez que vejo cenoura no restaurante. E não consigo deixar de pegar. Cenoura, beterraba e verdura - imposições da boa nutrição. Estava na fila do self service, prato em punho, olhar fixo na cenoura ainda longe e pensando betacaroteno, quando senti um tranco de leve nas costas. Olho para atrás e vejo uma menina com o braço quebrado. “Esbarrou o gesso sem querer”, pensei. Três segundos e um novo tranco. Constato que foi de propósito. Dou uma boa analisada no tipinho: uns dez anos, uniforme de escola, boné sujo de doce e virado para trás, avisando que não se tratava de uma delicada consumidora de barbies, mas de uma moleca daquelas que sobem em árvores e batem nos meninos folgados. Percebi que tinha pressa e que me empurrava com o gesso pra a fila andar mais rápido, julgado poder fazer isso de modo dissimulado. Que pirralha.
Considero-me bem dinâmica nessas filas. Já sei bem o que quero ou preciso e sou ágil com os pegadores de salada. No entanto, a ingratinha não me valorizava. Ficava me pressionando a cada três segundos, como se tivesse de comer para, em seguida, salvar o mundo. Ah, mexeu com meus brios. Regredi à infância e, em birra pura, passei a escolher mais demoradamente cada folha, cada fatia, cada grão. O gesso, então, passou a ser constante na minha lombar. “Se não aprendeu a ter modos e paciência em casa, aprende hoje comigo”, eu pensava, enquanto hesitava calmamente entre a lasanha e o rondele. Dispersamo-nos quando cada uma seguiu para um lado diferente das comidas mineiras.
Terminei de me servir e segui para a balança, quando vi que ela também ia, um pouco à minha frente. Nem pensei duas vezes: apertei o passo e a ultrapassei, deixando-a, de novo, esperando atrás de mim. Vitoriosa, pesei meu prato e tomei um bom lugar. Três mesas à frente, outras crianças com o mesmo uniforme já almoçavam. Vi que olhavam a pirralha (ainda na balança) e cochichavam sem parar. “Ela deve ser mesmo terrível”, concluí. Todos lá, falando dela. Pareciam até que tramavam algo. Esqueci o caso e comecei a comer, quando fui surpreendida por um esfuziante “Parabéns a você”. As crianças cantavam e batiam palmas com vigor, enquanto a pirralhinha chegava à mesa, toda envergonhada, sem saber o que fazer com o prato e a alegria. Poxa vida. Então era por isso, a pressa? Se eu soubesse, menina, cederia a vez e ainda bancaria a sobremesa. Em pensamento, dediquei um brinde com suco de laranja vitamina c. Felicidades, danadinha.

Publicado em 29 de novembro de 2007 às 11:30 por salome

Comentários

    • Hahahahahah! Que bunitinha a guria, pressa altamente justificável.
    • por estela
    • 29.Nov.2007 às 11:44 - Permalink - Reportar
    estela
  1. ariadne
  2. groucho
    • Puxa! Então ela até que é educada e controlou-se bem. Se ela tivesse um blog, hoje vc estaria lá, retratada, como a mulher chata na fila do self-service... hehehehe
    • por carina
    • 29.Nov.2007 às 14:52 - Permalink - Reportar
    carina
    • Para tirar o peso da consciência de nossa querida Salomé, lá vai um depoimento. Quando estudante, o pessoal da minha turma cantava parabéns a você o tempo todo pra quem fizesse uma cagada. Se eles seguem essa mesma linha, a menina só foi zuada porque chegou tarde na mesa. Ou seja, sua estratégia deu certo.
    • por titaku noku
    • 29.Nov.2007 às 15:12 - Permalink - Reportar
    titaku noku
    • hahahahahahaha! parabéns pra guria...
    • por pati.
    • 29.Nov.2007 às 15:27 - Permalink - Reportar
    pati.
  3. vivi
    • acabei de descobrir seu blog, adoreiiiii!
      amei o "depoimento" sobre a pirralinha...rsrsrrsrs
      muito bom, deu dó dela...rs!!!!

      sempre q der aparecerei por aq , adoro blogs com bons conteúdos!
      Abçs.
    • por larissa
    • 29.Out.2008 às 19:50 - Permalink - Reportar
    larissa
Deixe um comentário

Seu e-mail não será publicado

captcha

Digite os caracteres da figura acima. Temos que fazer isso para evitar spam.

Ainda não é cadastrado? Cadastre-se agora!