Os vizinhos fazem barulho. Na sala, a cadeira vazia tem jeito de ausência. O frio anuncia geada. No zapear, a tv se reafirma péssima companhia. Não dá coragem, ir lá fora. Não há assunto para contar. Não há sapato que não aperte, rímel que não borre. Os olhares sempre brilhantes, os dentes sempre à mostra. Dormir num cobertor fofo parece tão melhor. Travesseiro entorpecente. O pijama feio veste bem. As pantufas de sapo não querem virar príncipe. A gatinha mia atenção, tem ciúme do computador. Dá sede. Como é que pode esquecer de tomar água. E de escrever. Ficar tanto tempo. Não ler os outros, que triste. Tem tanto amigo longe. Mesmo os do bairro. Faz falta, a boa gente. É pedir muito, ter princípios? Parece que é. Lá fora, a relativização. O gingado perverso da adaptação. O frio. A conveniência. O miado da gata e a festa dos vizinhos se somam aos barulhos de dentro. Mentira que essa gente iogue consegue não pensar. Até parece melancolia, mas nem é. A verdade é assim mesmo. Os dias são assim. Tem alguém cantando. Não dá pra identificar a música, mas é algo doce, de quem está bem. Poderia até ser uma cantiga de ninar. Dormir já foi menos importante. Descer a Higienópolis de madrugada, sem medo. Que saudade. A neblina bonita, iluminada pelos prédios. A esperança que não cabia na JK. Mãos frias, coração quente. Olheiras, coração cansado. Cantiga de ninar, mais um crédito. Ainda há beleza. A despeito, sempre haverá. Boa noite.
Publicado em 29 de junho de 2008 às 02:51 por salome